sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A Origem das Açordas

Parece inquestionável que a açorda é uma dádiva da presença dos árabes pelas nossas terras. Parece também que a açorda é um prato de subsistência, provavelmente na sequência de crises alimentares. E a sua chegada até nós deve-se à sua facilidade de confecção e sobretudo à mistura simples de produtos de base. O pão foi sempre, e ainda é, um alimento estruturante da nossa alimentação.

Quando analisamos as fontes, receituário, da presença árabe na península encontramos muitas sopas às quais se adicionava pão esfarelado ou cortado grosseiramente. Parece ser esta a origem das açordas. No entanto quase só na zona sul do país assumimos a designação açorda. Este termo nunca aparece associado às sopas de pão que ainda hoje se confeccionam nas Beiras ou Trás-os-Montes.

E temos a grande variante da açorda, que já não é sopa, e que se transformou num prato de referência em Portugal. Ninguém abdica na zona costeira das variadas açordas de peixes e marisco.
No tratado de cozinha árabe, Kitâb-al-tabîj, dos séculos X e XI, de autor anónimo, encontramos a primeira designação de açorda. Noutro tratado, de Ibn Abd al-Ra’uf, também se refere a açorda, com a designação de Tarid [thari:d] ou Tarida, em árabe, que quer dizer pão migado, ao qual se junta alho, coentros e água quente.

Em consulta de dicionários de árabe encontramos ainda o termo Ath thurdâ, que significa sopa com pão.
Mas é no século XIII que nos surge o mais famoso tratado da época. Trata-se da obra “Fudalat al-Khiwan…” escrito por Ibn Razin Tujibi entre 1238 e 1266, e cujo título eu traduzo, a partir do francês, para “As Delícias da Mesa e os Melhores Tipos de Comida”. Neste livro há um capítulo dedicado às Panades (sopas com pão) logo de seguida ao capítulo do pão. Encontramos 25 receitas de Panades maioritariamente enriquecidas com carnes desde o frango ao capão, passando pelo pombo e borrego ou pelo cordeiro. Também aparecem três receitas de leite que terminam sempre com açúcar e canela pelo que deveriam pertencem ao grupo da doçaria. Curioso é de notar que já existia uma receita de Panade afrodisíaca.

Surpreendente é verificar, quando consultamos receituário contemporâneo dos países do Magrebe, não encontrar as famosas sopas com pão. Será pela alteração na fabricação do pão? E isto devido à influência francesa durante a primeira metade do século XX?
Parece, no entanto, que será desta prática de sopas com pão que nasceram, e se transformaram, as nossas açordas.

Como referi no início o pão, ainda hoje, é um elemento estruturante da nossa alimentação. E no passado o pão teria que ser consumido na sua totalidade pelo seu valor de apoio permanente ao consumo. A sua aplicação na sopa seria uma forma de utilizar o pão mais velho e mais seco. Seria a sua absorção integral.

Encontramos em Gil Vicente possivelmente a primeira designação de açorda, na Farsa dos Almocreves: “Tendes uma voz tão gorda/ que parece alifante/ depois de farto de açorda”. E ainda não havia os actuais conceitos de estética do corpo, que hoje temos!

Todos sabemos que as sopas eram pratos de importância e capazes de fazer uma refeição completa e o pão cumpria bem a missão de a fazer engrossar. A castanha tinha utilização regional e a batata ainda estava longe de aparecer.

No primeiro livro de cozinha impresso em Portugal, de Domingos Rodrigues, “A Arte de Cozinha…”, em 1680, é feita uma clara distinção entre caldos e sopas, sendo que estas eram sempre confeccionadas com pão, ou este adicionado no final. Algumas vezes, e seria designação corrente, chamavam sopas às fatias de pão sobre as quais se colocavam produtos cozinhados especialmente carnes. Também Domingos Rodrigues nos apresenta três sopas doces, sempre com pão e açúcar e canela.

No livro que em seguida se publicou em Portugal, de Lucas Rigaud, “Cozinheiro Moderno, ou Nova Arte de Cozinha…”, em 1780, e com uma preocupação mais elitista da cozinha e a tentativa de instalação da moda francesa, não deixa de referir várias sopas iniciando a confecção da maioria com a preparação do pão. É pois constante que a designação de sopa esteja sempre associada ao pão.

Não encontrei a palavra açorda nestes nossos primeiros dois livros. Será que o termo estava destinado às confecções domésticas?

Em 1876 publica João da Mata o seu “Arte de Cozinha” especialmente destinado aos profissionais. Encontramos aqui a açorda com bacalhau, uma sopa de pão à portuguesa e ainda outras sopas com pão. A açorda aqui receituada não é uma sopa mas uma açorda muito semelhante às que hoje encontramos. Este livro entra com facilidade no século XX e será o manual dos profissionais da época.
Mas é com Carlos Bento da Maia, edição de 1904, com o título “Tratado Completo de Cozinha e Copa”, que as açordas aparecem como confecção culinária e ilustradas com onze receitas, e fazendo bem a separação das muitas sopas com pão. Estamos na época do aparecimento de restaurantes, e a cozinha regional começa a evidenciar-se. Continua a haver, no entanto, um espírito de copiar a cozinha francesa dado que apenas esta é assumida como alta cozinha.

A presença da cozinha regional portuguesa, nos restaurantes, é assumidamente um acto positivo a partir dos anos 40. A imposição legal de nas Pousadas de Portugal, inauguradas a partir de 1942, ser obrigatoriamente servida cozinha regional, e projectadas como locais de elite, levou muitos restaurantes a seguir o seu exemplo. Em 1936 publica-se o livro “Culinária Portuguesa”, de António Maria de Oliveira Bello no qual é verdadeiramente feito o elogia e defesa da cozinha regional, onde são apresentadas sete receitas de açorda. Já mesmo autor tinha publicado no livro “Culinária”, 1928, uma receita de Açorda de Alhos à Portuguesa enquanto sopa à base de pão, sobre a qual se colocava ovos estrelados preparados à parte, ou ovos escalfados… Será a partir desta receita que nos aparece a “açorda à alentejana”, que enquanto açorda é a única sopa do nosso receituário regional?

Em 1940 publica-se o livro “Volúpia” de Albino Forjaz de Sampaio, e na minha opinião o primeiro livro de gastronomia em Portugal. O autor na sua descrição do Portugal Gastronómico lá refere a açorda, e apresenta mesmo uma receita em verso do poeta José Inácio de Araújo: “Açorda Portuguesa”, que classificada de invenção portuguesa, alimento fortificante e capaz de ter derrotado os mouros.
Mas qual é a realidade das açordas na cozinha portuguesa? Primeiro temos a açorda/sopa de que a Açorda Alentejana é o melhor exemplo. Depois a glorificação das açordas como prato completo e a imensa variedade de receituário desde o Douro, toda a costa atlântica com peixes e mariscos, da Beira ao Alentejo com o bacalhau, e o Alentejo com as carnes de porco e enchidos. Temos ainda o conceito de açorda como guarnição, ou complemento, de que saboreamos o excelente exemplo com sável e respectiva açorda de ovas. E teremos sempre açordas maravilhosas enquanto mantivermos a qualidade do nosso pão. Podem-se criar novas receitas, e mais inventivas. Pode molhar-se o pão com canja de galinha e misturar depois o marisco. O que não pode ser alterado é o nosso pão.


(C) Virgilio Nogueiro Gomes


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Um país onde a corrupção vai morrer inocente e o povo vai ser culpado



http://www.youtube.com/watch_popup?v=tJj0H5C-uhc



"Os Enfermeiros são o verdadeiro sangue da vida hospitalar" »» Francisco Moita Flores


Li a seguinte nota de Francisco Moita Flores e, com respeito pelos novos enfermeiros, com uma licenciatura real e não adquirida em apenas um ano, como alguns incompetentes do novo governo, que além de de impostores vigaristas ajudam a escravizar a digna profissão de enfermagem, não podia deixar de publicar a mesma.
"Os Enfermeiros são o verdadeiro sangue da vida hospitalar:
Leio e envergonho-me. Responsáveis da saúde conferiram a uma empresa privada a adjudicação de um contrato de fornecimento de enfermeiros. Assim, como se fornecessem salsichas para um refeitório. A empresa põe os enfermeiros a trabalhar... nos serviços de saúde e paga a cada um deles, por hora de trabalho, 3,95 euros à hora. Não sei quanto fica para a empresa a contratação por cabeça, mas seguramente o cansativo e diligente trabalho do intermediário terá que ficar com uma boa parte da remuneração contratada. No fundo, o que os serviços de saúde fizeram foi contratar intermediários. A 3,95 euros à hora estes subalugam escravos ou semi-escravos dependentes dessa miséria para sobreviverem.
Foi a doença e o hospital, que por várias vezes pontuaram a minha vida, que me fizeram conhecer a vida e o trabalho da enfermagem. As horas intermináveis de serviço, a atenção cuidada aos doentes, a capacidade de sorrir e animar um paciente mesmo quando o cansaço já se lhe adivinha nos olhos. A atenção profissional aos sinais clínicos, às campainhas, aos gemidos de dor, a insónia para que aqueles que cuidam possam descansar, os actos clínicos cautelosos, explicados, rigorosos, cumprindo-se enquanto profissionais e cidadãos. São a parte mais decisiva de toda a organização do sistema de saúde. Nas suas mãos morrem muitos. Das suas mãos renascem para a vida muitos mais, enquanto o médico chega ou não chega. São o verdadeiro sangue da vida hospitalar. O apoio primeiro. O primeiro olhar. E, por vezes, a última palavra. São homens e mulheres com as mãos mergulhadas na dimensão maior da sua existência, reparando, tratando, cuidando de doentes, de convalescentes, de moribundos. Nunca lhesagradeceremos tudo aquilo que merecem, centrado que está o olhar nasdecisões do médico. Mas são a essência das nossas expectativas desobrevivência quando nos confrontamos com a doença. Pagar-lhes 3,95euros à hora não é apenas tratá-los mal. É sujeitá-los à humilhação eà miséria. É transformar seres humanos, superiormente qualificados, emindigentes a quem se dá a esmola para que não morram de fome. É umavergonha que os envergonha e nos envergonha. É um País não terrespeito por si próprio embora esteja de braços abertos aointermediário. Aos parasitas. Um estado que permite isto deveria serpago à vergastada."
Será que mais uma voz?mexe as consciências do Governo da Nação?
Francisco Moita Flores


TOQUIM BARRETO - O PILOTO ESQUECIDO



Recordando um piloto incompreensivelmente esquecido

António Joaquim Borges Barreto, Toquim para os amigos.

Toquim Barreto passou pelo automobilismo desportivo como um meteoro, numa

curta carreira de apenas três anos, mas onde mostrou todo o seu grande entusiasmo e

coragem que o poderiam ter alcandorado a um lugar muito alto se o destino não o

tivesse impedido de chegar onde ele e todos nós esperávamos.

Inicia-se na competição automobilística em 1964, com 23 anos, na VI Volta a

Portugal, organizada pelo clube "100 à Hora" e, perante o espanto de todos, conquista

o 1º. lugar, vencendo uma prova onde era um estreante a enfrentar adversários muito

mais experientes.

Numa entrevista dada ao Diário de Lisboa a 6 de Dezembro daquele ano, Toquim

diz:

"Sou estreante. Nunca entrei em provas, se bem que conduzo há bastante tempo.

Sinceramente lhe digo: quis avaliar o prazer destas andanças. Não sabia nada disto e

não queria deixar de experimentar as sensações que outros volantes têm tido. Agora

não desisto mais..."

E não desistiu. Primeiro com um Porsche e depois num Ferrari 250 MM (spider

Vignale) que adquiriu a D. Fernando de Mascarenhas.

Em 1955 classifica-se em 7º. lugar no G.P. de Portugal, em 10º. no G.P. de Lisboa,

em 2º. na Rampa da Penha em Guimarães e em 1º., na classe, num Quilómetro de

Arranque.

Em 1956, no G.P. do Porto obtém o 4º. lugar com um Ferrari 750 Monza (spider

Scaglietti) adquirido também a D. Fernando de Mascarenhas.

Compra, então, um Ferrari 500 TRC com que inicia a sua carreiras internacional

nas 10 Horas de Messina onde alcança um 3º. lugar ganhando a "Taça dos Novos".

Parecia estar lançada a via que o transportaria ao seio dos grandes pilotos

mundiais.

Em entrevista dada ao "Volante", em 15 de Setembro, com entusiasmo diz:

"Vou para Itália, onde me demorarei poucos dias, apenas o tempo necessário para

alguns treinos na Ferrari. Depois sigo para França onde no dia 23, em Saint-Etienne

disputarei uma prova de circuito à qual devem correr todos os "bons" e em que eu

correrei oficialmente pela Ferrari."

Perante o espanto do entrevistador, Toquim informa-o: "Exactamente pela Ferrari.

Em Messina já corri pela Ferrari mas agora é verdadeiramente oficial a minha

presença na equipa".

E, em resposta à pergunta do entrevistador se se tornava profissional, Toquim diz-

lhe que "É essa a minha intenção. Tenho 25 anos e reconheço que posso fazer

qualquer coisa interessante. Lá fora escasseiam os corredores novos: julgo que a

ocasião é de aproveitar..."

Porém, o destino não quis que assim fosse e... no dia 30 de Maio, nas "6 Horas de

Forez", espera-o para cortar todos os sonhos de glória deste extraordinário piloto de

quem tanto havia a esperar.

Quando seguia em terceiro lugar, o carro de Piero Carini despistou-se, derruba a

barreira entre as duas rectas da corrida e vem chocar, a mais de 200 km/h, com o de

Borges Barreto, ocasionando a morte imediata de ambos.

O Toquim não morre motivado por qualquer falha mecânica ou humana, mas

porque aquela hora e naquele local estava destinado que outro carro levantasse voo e

viesse cair em cima se si pondo ponto final em todos os sonhos e projectos daquele

que poderia muito bem ter sido o primeiro piloto de Fórmula 1 português com

possibilidade de alcançar lugares cimeiros, pois iria correr numa equipa onde nenhum

outro do seu país conseguiu chegar.

Évora inteira chorou a morte daquele filho querido da terra que depois de lhe ter

proporcionado tantas alegrias com os seus êxitos lhe trazia agora o luto e a dor.

Por entre uma multidão imensa que lhe quis prestar a última homenagem, o caixão

foi transportado aos ombros desde a igreja na Praça do Giraldo, no centro da cidade,

até ao cemitério já fora das muralhas.

Entre as muitas flores que juncavam a sepultura, destacavam-se duas coroas pelo

seu significado: a da família do malogrado Piero Carini e a de Enzo Ferrari que,

assim, prestava a última homenagem a este fugaz representante do "cavallino

rampante".

E, apesar do incompreensível esquecimento a que este grande piloto foi votado no

seu país, no livro dos principais pilotos da Ferrari a sua fotografia lá está com a

legenda, bem significativa da personalidade de António Borges Barreto, o legendário

Toquim:

"...AVEVA CORAGGIO E PASSIONE: É MORTO A SOLI 26 ANNI..."

Fonte: Armando de Lacerda

(A Paulo Piçarra e ao Diário do Sul o meu muito obrigado »» disponibilizou todas as fotografias e artigos

existentes no seu jornal. Armando de Lacerda.)

CANTE ALENTEJANO - OS CANTARES DE PORTEL



Ao folhearmos a 1ª e a 2ª série dos Cantos Populares de Portel, recolhidos pelo Sr. Artur Duarte, músico da marinha e publicados pelo Sr. J. ª Pombinho Júnior, edições de 1948 e 1949, respectivamente, constatamos que alguns daqueles cantos tem estruturas musicais do tipo modal, como nalgumas modas alentejanas.

Por exemplo na 1ª série os cantos “Laranja da China”, “Aldeia da Laranja” e “Que levas na garrafinha”, são desse tipo de música. Os finais desses cantos, o primeiro em Fá Maior e os outros dois em Sol Maior, terminam respectivamente em Dó e em Ré, sem a preparação necessária para a modulação ao tom vizinho, mas utilizando as formas de modo Eóleo. Na 2ª série, o canto de passar da Ribeirinha, tem também uma terminação modal e não tonal. Trata-se, pois, nestes casos, de um grupo de modas que passaram para Portel, talvez através da Vidigueira, de Cuba ou de Viana do Alentejo nas romarias à Senhora de Aires, ou dos frades paulistas da Serra da Ossa, que abriram escolas de cante popular em Serpa, no Baixo Alentejo, onde provavelmente teve origem o cante alentejano.

Até à Serra de Ossa ainda se podem ouvir os lindos corais alentejanos. Depois, os adufos e os pandeiros acompanham a música Regional do Alto Alentejo, que se caracteriza especialmente nas “saias”, que se destinguem em velhas e novas, aiadas, puladas e com estribilho. As “saias” novas são ou eram cantadas em Elvas no S. Mateus, pelos grupos de Campo Maior, Borba, Vila Viçosa e Amandroal, em despique.

Ora Portel, influenciado pela música coreográfica do Alto Alentejo, que se caracteriza especialmente nas “saias”, como já referimos, principiou ultimamente a juntar às vozes dos cantadores alguns instrumentos, com ritmos novos, coisa que nunca se viu até ali nas músicas alentejanas. E o pior é que Beja foi-lhe no encalce e afinou pelo mesmo diapasão, juntando-lhe ao canto e aos instrumentos, vozes femininas, em interpretações por vezes bizarras, pouco de harmonia com o tradicional cante alentejano. Há quem goste e quem não goste, pertencendo a este último grupo aqueles que ainda sabem distinguir entre uma cobra e um lagarto.

É claro que não é com duas cantigas azougadas que se muda a face da terra, que continuará a girar sempre à volta do sol.

O contrário seria a destruição do nosso planeta e dos seus colegas vizinhos e não sabemos se de mais alguns.

Não é tarefa fácil destruir a alma de um povo, por mais tentativas que se façam para o conseguir. Ela permanece sempre através de tudo, especialmente nas suas tradições. Ali deixa o homem e a sociedade que ela formou, bem vincada, a sua personalidade, a sua razão de ser e de viver. O Alentejo será sempre reconhecível através das suas velhinhas, nostálgicas e encantadoras modas, de cantadores bem unidos nas vozes, nos corpos, nos sentimentos e na vida.




Padre António Alfaiate Marvão,

Congresso Sobre o Alentejo - Semeando Novos Rumos,

Évora, Outubro 1985, I Volume, Págs. 104 a 107

Edição da Associação de Munícipios do Distrito de Beja

CANTE ALENTEJANO




O cante alentejano é uma polifonia simples, a duas vozes paralelas, à terceira superior. Como polifonia, vamos situá-la na época em que a polifonia tinha o primeiro lugar na mmúsica, toda ela vocal, a que se deu o nome de MILÉNIO VOCAL, uma polifonia sem instrumentos, que aparecem no período do Renascimento, no século XVI.

O cante alentejano é composto de modas, nas quais sobressaem, nalgumas delas, dois sistemas musicais inteiramente distintos: o sistema modal e o sistema tonal. O sistema modal, em uso durante toda a Idade Média, o sistema tonal, já fruto do Renascimento, no século XVI. O sistema modal grego, adaptado e modificado por S. Gregório, era composto dos modos Dórico, Erígio, Eóleo, Lídio e Mixolídio.

Os modos tinham sete notas, cujos semitons variavam na escala, ao contrário das nossas escalas, cujas melodias giram sempre em volta da tónica e da superdominante, segundo o tom é maior ou menor.

Os vestígios dos modos que mais frequentemente nos aparecem nalgumas modas alentejanas são do Eóleo, nas modas “Toda a bela noite eu estive” e “Ai ai”.

Do Mixolídio nas modas “Meu lírio roxo” e “Água leva o regador”.

Do Frígio no cântico ao Deus Menino de S. Matias.

No Lídio na moda “O Sarapateado”, de Santo Aleixo da Restauração e na moda “Ó abre-me a porta”.

Estes restos do sistema modal encontravam-se, em muitos casos, nos finais das modas ou dos estribilhos.

As principais características das modas alentejanas são as seguintes:

(a) Serem todas em tons maiores;

(b) Terem algumas o soluço eclesiástico, ou pausa para respirar, no meio da palavra;

(c) Terem algumas o acorde de tritono, que Arnol Schomberg baniu da harmonia ao inventar a dodecafonia seriada.

Como se canta o cante alentejano – Os cantadores, geralmente homens do campo, cantam em grupo, divididas as vozes em três naipes: o Ponto, o Alto e as Segundas vozes. A função do Ponto iniciar a moda, retomada depois pelo Alto, e em seguida pelas segundas vozes, constituindo assim o coro. A função específica do Alto é preencher as pausas com os “vaias”, no fim das frases musicais, excepto na última – assim uma espécie de Ponto na 1ª vez.

Podemos dividir o cante alentejano em três tipos de música: as modas lentas, as modas coreográficas e os cantes religiosos.

O que canta o cante alentejano – As modas alentejanas cantam-nos o Alentejo, com todas as suas belezas e a vida dos alentejanos. Há modas para todas as épocas do ano – a sementeira, com a moda da “Lavoura”, que yem o seguinte verso:

Já morreu o boi capote

Camarada do pombinho

Quem não for capaz que não bote

Regos ao pé do caminho

Da monda, com o “Manjerico folha recortada, da ceifeira, da apanha dos legumes, do casamento”, com a seguinte letra,

Marianita és baixinha

Ai, roja a saia pela lama

Ai, tenho to dito mil vezes

Ai. Levanta a saia Mariana

das sortes que diz assim,

Senhora do Livramento

Livrai o meu namorado

Para que ele seja livre

Ai, Meu Jesus

Ai, Meu Jesus

Dessa vida de soldado

Dessa vida de soldado

Da vida militar que diz assim,

Lá vai o combóio, lá vai

Lá vai ele a assobiar

Lá vai o meu lindo amor

Para a vida militar

O cante alentejano tem o sentido do amor, da saudade e da tristeza, embora associados também a outros motivos. Das 206 modas do Cancioneiro Alentejano, 114 falam do Amor. Por exemplo as modas “Lindo Amor”, “Ao romper da bela aurora” e “Ribeira vai cheia”, etc.

Das restantes 92, a maior parte canta a saudade. Por exemplo “O Meu Baleizão”, “As cobrinhas de água”, “Já morreu quem me lavava”, etc. 6 modas cantam a morte e 17 cantam a tristeza. Cantam a morte as modas “Lindo Amor”, “Solidão” e “Já morreu quem me lavava”. Cantam o sofrimento as modas “Anda cá senta-te aqui”, “Ó Maria Rita” e “Suspiros ais e tormentos”, etc.

DONDE VEIO O CANTE ALENTEJANO – A hipótese mais significativa é a que nos aponta a vila de Serpa como terra onde se organizou o cante Alentejano, pelo seguinte. As escolas de polifonia clássica do século XV, em Évora foram frequentadas por alguns frades da Serra de Ossa. Alguns destes mesmos frades foram mandados para Serpa onde fundaram o convento dos paulistas e Escolas de Cante Popular. Deve ter sido dessas escolas que saiu o cante alentejano. O cante alentejano tem princípio, meio e fim, pelo que somos levados a crer que os autores das modas alentejanas tenham pessoas dotadas de conhecimentos musicais suficientes para as inventar. Estas escolas de canto popular, fundadas pelos frades paulistas da Serra de Ossa, teriam a sua origem aí pelos fins do século XV, na transição do Milénio Vocal para o Renascimento.

Assim definido, o cante alentejano representa a cultura popular tradicional do povo do Baixo Alentejo, de um extraordinário, com a sua identidade própria, as suas características específicas e a sua peculiar interpretação. Esta cultura mergulha as suas raízes no sistema musical medievo, numa perfeita simbiose de modas e de tons, fruto da evolução da música no período renascentista. Esta cultura traduz a perfeita imagem do povo alentejano, no seu quotidiano, durante séculos, e que se mantem viva, em toda a sua beleza sentimental e nostálgica, que embalou, a sua gente, a fez trabalhar, cantar, chorar, sofrer rezar e morrer, numa epopeia bem digna da pena de um novo ainda que rústico épico.




OS CANTARES DE PORTEL

Ao folhearmos a 1ª e a 2ª série dos Cantos Populares de Portel, recolhidos pelo Sr. Artur Duarte, músico da marinha e publicados pelo Sr. J. ª Pombinho Júnior, edições de 1948 e 1949, respectivamente, constatamos que alguns daqueles cantos tem estruturas musicais do tipo modal, como nalgumas modas alentejanas.

Por exemplo na 1ª série os cantos “Laranja da China”, “Aldeia da Laranja” e “Que levas na garrafinha”, são desse tipo de música. Os finais desses cantos, o primeiro em Fá Maior e os outros dois em Sol Maior, terminam respectivamente em Dó e em Ré, sem a preparação necessária para a modulação ao tom vizinho, mas utilizando as formas de modo Eóleo. Na 2ª série, o canto de passar da Ribeirinha, tem também uma terminação modal e não tonal. Trata-se, pois, nestes casos, de um grupo de modas que passaram para Portel, talvez através da Vidigueira, de Cuba ou de Viana do Alentejo nas romarias à Senhora de Aires, ou dos frades paulistas da Serra da Ossa, que abriram escolas de cante popular em Serpa, no Baixo Alentejo, onde provavelmente teve origem o cante alentejano.

Até à Serra de Ossa ainda se podem ouvir os lindos corais alentejanos. Depois, os adufos e os pandeiros acompanham a música Regional do Alto Alentejo, que se caracteriza especialmente nas “saias”, que se destinguem em velhas e novas, aiadas, puladas e com estribilho. As “saias” novas são ou eram cantadas em Elvas no S. Mateus, pelos grupos de Campo Maior, Borba, Vila Viçosa e Amandroal, em despique.

Ora Portel, influenciado pela música coreográfica do Alto Alentejo, que se caracteriza especialmente nas “saias”, como já referimos, principiou ultimamente a juntar às vozes dos cantadores alguns instrumentos, com ritmos novos, coisa que nunca se viu até ali nas músicas alentejanas. E o pior é que Beja foi-lhe no encalce e afinou pelo mesmo diapasão, juntando-lhe ao canto e aos instrumentos, vozes femininas, em interpretações por vezes bizarras, pouco de harmonia com o tradicional cante alentejano. Há quem goste e quem não goste, pertencendo a este último grupo aqueles que ainda sabem distinguir entre uma cobra e um lagarto.

É claro que não é com duas cantigas azougadas que se muda a face da terra, que continuará a girar sempre à volta do sol.

O contrário seria a destruição do nosso planeta e dos seus colegas vizinhos e não sabemos se de mais alguns.

Não é tarefa fácil destruir a alma de um povo, por mais tentativas que se façam para o conseguir. Ela permanece sempre através de tudo, especialmente nas suas tradições. Ali deixa o homem e a sociedade que ela formou, bem vincada, a sua personalidade, a sua razão de ser e de viver. O Alentejo será sempre reconhecível através das suas velhinhas, nostálgicas e encantadoras modas, de cantadores bem unidos nas vozes, nos corpos, nos sentimentos e na vida.

Padre António Alfaiate Marvão,

Congresso Sobre o Alentejo - Semeando Novos Rumos,

Évora, Outubro 1985, I Volume, Págs. 104 a 107

Edição da Associação de Munícipios do Distrito de Beja